HISTÓRIA

Eis a serva do Senhor

Mosteiro de Santa Maria de Ermelo

A fundação do Mosteiro de Santa Maria de Ermelo é uma incógnita que a história ainda não conseguiu desvendar. Contudo, reza a tradição que foi D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, que terá criado este convento. A primeira referência histórica ao monumento data de 1220 (Inquirições de D. Afonso II), onde se afirma que a rainha D. Teresa doou a sua terra reguenga de S. Martinho de Britelo, em Ponte da Barca, ao Mosteiro de Ermelo. Há, no entanto, quem faça recuar ainda mais no tempo a fundação do mosteiro. Segundo algumas correntes historiográficas, terão sido os Beneditinos a erguer o mosteiro no século XII na freguesia de S. Pedro dos Arcos, atual freguesia de S. Pedro do Vale, deslocando-o mais tarde para Ermelo.

Em novembro de 1441, é consignado o auto de extinção e redução do mosteiro a igreja paroquial. No entanto, a situação deve ter-se mantido por pouco tempo, pois apenas alguns anos depois surgem documentos com referências ao mosteiro, entre os quais um de particular interesse, datado de 1497, em que o rei D. Manuel I confirma todas as honras, mercês e privilégios concedidos pelos seus antecessores. Em 1553, após uma visitação do Abade Geral da Ordem, foi mandado encerrar, mas só mais tarde é que o Abade de Ermelo desiste do Mosteiro em favor de Alcobaça, ficando os bens anexos ao Colégio Universitário de S. Bernardo de Coimbra. No entanto, é conhecida uma carta de confirmação de Francisco Barreto Meneses como abade do mosteiro (1632), o que leva a crer que extinção não surtiu efeito.

Em 1754, o visitador Marcelino Pereira Cleto queixa-se do mau estado de conservação de todo o edifício, ordenando o seu restauro. É nesta altura que a igreja é reduzida de três para uma nave, tendo a ala sul sido demolida em 1760. É ainda neste século XVIII que são construídas a casa paroquial, a sacristia e a torre sineira.

Pintura Mural da Igreja de Santa Maria de Ermelo

A igreja possui um conjunto de frescos de grande qualidade artística, descobertos em 1996. Até esta data, sabia-se apenas da sua existência por uma nota datada de 1706, onde o padre Carvalho da Costa dava conta dos frescos da capela representando a Virgem Maria e S. Bento. A intervenção de conservação e restauro permitiu sistematizar três campanhas de pintura, correspondentes a momentos de execução cronologicamente distintos, reportando-se a mais antiga à primeira metade do séc. XVI, segundo Luís Urbano Afonso. A composição apresenta uma disposição semelhante nas diferentes campanhas - três registos separados entre si por barras e frisos. Os mais recentes foram executados sobre a primitiva pintura a fresco. Joaquim Caetano diz-nos que estes frescos são da produção das Oficinas do Mestre de Valença e do Mestre Arnaus.

Lenda da Fundação

Conta-se que o rei Ordonho II, governador das Astúrias e de todos os territórios a sul conquistados aos guerreiros do Islão, tinha uma filha chamada D. Urraca que era piedosa, protetora de igrejas e conventos, devotamente dedicada à divulgação da fé cristã. Um dia, D. Urraca decidiu fundar um mosteiro para frades num local fértil, rodeado de boas águas, em que houvesse sítio para meditação, vinhedos e trigais que fornecessem pão e vinho para o Mistério Eucarístico.

Com o consentimento do pai, a princesa partiu acompanhada das suas aias e de alguns soldados, tendo chegado à Serra da Peneda, onde constatou que havia silêncio para a oração e uma larga vista sobre uma paisagem pacífica. Então, começou a subir a serra, parando em alguns locais para repousar, existindo ainda hoje o lugar da Bouça das Donas, onde terá parado para descansar e contemplar tudo o que a rodeava. Já junto à vila do Soajo, achou o espaço apropriado para a edificação do Mosteiro e, por isso, contratou os pedreiros para abrir os alicerces.

Feliz, D. Urraca regressou à Corte de seu pai para lhe contar a novidade. Curioso, Ordonho II perguntou-lhe o que se avistava daquelas alturas. Respondeu-lhe a princesa que se via, para sul, as torres da Sé de Braga e o casario da cidade; para norte, as catedrais de Tuy e de Ourense; para oeste, as praias; para este, campos e montes sem conta. O rei ouviu e, depois de refletir, disse a D. Urraca que, apesar de gostar de satisfazer a sua vontade de servir Deus, não podia despender metade do seu reino neste Mosteiro, considerando demasiado grande esse horizonte.

Assim, Ordonho II ordenou que a princesa encontrasse um outro sítio menos amplo para a construção do Mosteiro. Triste com a decisão, D. Urraca resolveu mandar edificar o Mosteiro, não no cimo do monte, mas na profundeza do vale, junto ao rio, no meio das brumas, embrenhado na solidão do ermo. E, por isso, chamou-lhe Mosteiro do Ermelo.

Adaptação do texto de António Manuel Couto Viana, no livro “Lendas do Vale do Lima”, numa edição da Valima – Associação de Municípios do Vale do Lima, em 2002, p. 77-79.